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Ler, ler, ler, viver a vida que outros sonharam

kansas

| 3 Comentários


Esses dias eu vi o filme Mágico de Oz, faz parte do meu projeto de assistir aos filmes clássicos. Já deu pra perceber o quanto eu gosto disso né? Listinha de cem melhores, top dez de todos os tempos melhores do mundo, coisa e tal, gosto mesmo, apesar de. Mas vou falar de outra coisa. Pois é. Vi o filme e gostei, achei engraçadinho, faz jus a ser um clássico mesmo.

Aí hoje por causa de uma conversa que rolou lá no boteco do blog Mothern, sobre os defeitos que todos nós apresentamos depois que casamos, a vida em comum, o encanto que passa, etc, eu lembrei de um trecho de um livro que tinha lido. Achei coincidência as três coisas me aparecerem juntas, o filme, o livro (que fala sobre o mágico de oz e nossas expectativas) e a conversa no Buteco (aliás minha vida anda uma sucessão de sincronias que está até me assustando).

Aí resolvi colocar o trechinho do livro aqui. Mudei só a última frase (a que não está em itálico) para fazer sentido, pois o parágrafo continua, mas tem que ler o livro. Mas taí, é legal.

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 “Você não está mais no Kansas*

Eu sou o que chamam de terapeuta cognitivo-comportamental. O que isso significa em português claro? Simplesmente isso: eu acredito que seres humanos nunca fazem nada espontaneamente. O pensamento sempre precede a ação. Então, para fazer mudanças, você tem de mudar seus pensamentos antes. Parece simples? Bem, de certa forma é!

Você se lembra da história O Mágico de Oz? O autor de Investment in Excellence [Investimento em Excelência], Lou Tice, usa o enredo daquele filme como metáfora para fazer uma afirmação que eu gostaria de compartilhar com você. Na história, nós conhecemos Dorothy, Totó, o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde. Eles saem para visitar o Mágico que vive no Mundo de Oz. Passam por todo tipo de aventura, mas o objetivo de sua jornada é, essencialmente, tornarem-se mais dignos. Os outros vêem o Mágico como o todo-poderoso, que tem a habilidade para lhes dar o que precisam, o que tanto desejaram. Desse modo, é uma grande decepção e uma grande surpresa quando Totó abre a cortina e tudo o que eles vêem é um homenzinho comum puxando alavancas. Suas expectativas não são atendidas. Não há nenhum mágico no final das contas. Na verdade, na melhor das hipóteses, o mágico é neutro. Ele não é mau. Ele não é bom. Ele é falso. Ponto final. Fim da história.

Dorothy, o Homem de Lata e os outros personagens podem ter acreditado no poder do Mágico, mas isso não fez esse poder se tornar real. Claro, tornou a vida mais fácil por um tempo pensar que alguém ou alguma coisa poderia fazer com que todos os problemas desaparecessem, que era possível viver feliz para sempre, mas não ajudou muito em circunstâncias reais. Na prática, o homenzinho com as alavancas não lhes conseguiu nada. O Leão ainda precisava de coragem, e o Espantalho, de cérebro. Dorothy continuava querendo ir para casa, e o Homem de Lata não conseguiu o coração que queria. Acreditar e pensar que o Mágico tinha poder foi o que instigou a jornada do grupo. Em outras palavras, um pensamento (sobre o poder do Mágico) levou à ação (sair para encontrar o Mágico). Mas esse pensamento mal orientado também os levou a um beco sem saída.

Quando crianças, fomos iludidos. Como Dorothy e seus amigos no mundo mágico, nosso futuro nos foi mostrado como um mar de rosas. De romances a filmes e sonhos sobre o que queríamos ser quando crescêssemos, achamos que, por meio de uma combinação de muito trabalho e boa sorte, conseguiríamos qualquer coisa. Quando nos perguntavam como queríamos que nossas vidas fossem, respondíamos de acordo com o que acreditávamos que nossas vidas poderiam ser. Respondíamos que queríamos viver em um apartamento minúsculo, arrastando-nos como coitados por dias e dias de trabalho em um lugar onde não teríamos como crescer profissionalmente? Não! Respondíamos dizendo que queríamos experimentar a dor de romances fracassados, de doenças e morte, de traição, crise económica ou as diversas pequenas decepções que enfrentamos todos os dias? Claro que não! Falávamos a verdade. Queríamos ser bombeiros ou enfermeiras, casados, felizes e ricos quando crescêssemos.

Gostaríamos de uma casa com cerquinha branca. Queríamos filhos, uma carreira de sucesso, um relacionamento gostoso, uma vida sexual divertida, comida de sobra e uma garagem para dois carros. Esses ideais eram sonhos e nunca os questionamos até que a desilusão e o desencanto com as expectativas não atendidas começaram, devagar, contudo sempre presentes, a acumular. Em outras palavras, começamos a crescer. Pode ser difícil se conformar, mas, de muitas maneiras, crescer significa desapontar-se.

Pegue, por exemplo, uma criança de 13 anos. Escola, professores, pais, o clima – oh, vida! -, tudo é visto como sendo completamente injusto. Por quê? Geralmente, a criança de 13 anos está presenciando, em circunstâncias muito reais, as barreiras que estão mais altas, e que seus pais não conseguem solucionar tudo, não podem fazer tudo ficar bem. A criança expressa sua frustração com a realidade, declarando que tudo e todos são injustos.

Do primeiro brinquedo quebrado que não tem conserto ao primeiro gol que não fazemos, do primeiro amor não correspondido ao primeiro emprego que não conseguimos, todos nós aprendemos lentamente que a vida não é justa. Ainda assim, isso raramente acaba com nos-sas fantasias. O que é uma fantasia? Em poucas palavras, é uma expectativa irrealista, uma ideia ou ideal que não questionamos. E o “mágico” que buscamos, acreditando sem pensar direito. Ironicamente, quando ficamos decepcionados, não abandonamos as fantasias. Muito pelo contrário, simplesmente a trocamos por outra. Trocamos a fantasia de uma vida adolescente perfeita pela dos anos futuros, independentes e divertidos que teremos quando chegarmos aos 20 e poucos anos. Quando mais uma vez nos desapontamos, passamos a acreditar que a vida familiar, com uma casa e crianças, irá resolver nossos problemas, que a verdadeira felicidade pode ser encontrada lá. Em outras palavras, como Dorothy e seus amigos, trocamos um falso mágico por outro. Acreditamos que conseguiremos uma carteira de motorista, que vamos nos formar, que vamos beber cerveja e que, de alguma forma, tudo vai dar certo.

Estamos certos? Você vai me dizer.

Quando o Mágico diz ao Espantalho: “Pelos poderes em mim investidos, dou-lhe este diploma – agora seja inteligente”; quando ele diz ao Leão: “Pelos poderes em mim investidos, dou-lhe esta medalha de coragem – agora seja corajoso!”, funciona? Acontece? Talvez nos filmes, mas na vida real, quando somos proclamados adultos – “agora seja maduro!”-, ficamos perplexos, com o queixo caído e olhos bem abertos, balbuciando: “Como?”.

Nunca havíamos sido adultos. Realmente não sabemos o que fazer. Toda nossa experiência de vida anterior foi a de uma criança ou adolescente. Ainda estamos presos às fantasias que formamos enquanto crescíamos. Nós não as substituímos por nada novo. Então, de alguma forma, de algum jeito, em algum lugar, apesar de toda a experiência contrária, ainda esperamos que a vida seja justa.
A verdade é que, assim como as ordens do Mágico de “Seja corajoso” e “Seja inteligente” foram arbitrárias e ridículas, as ordens do padre ou pastor de “Sejam casados”, depois da cerimónia, são arbitrárias e ridículas também. Se você nunca foi casado antes, como sabe o que é ser casado? Se seu casamento não deu certo uma vez, como se prevenir para que não aconteça de novo?
Você não pode saber, automaticamente, como ser adulto ou casado, a menos que saiba o que esperar. Esperar perfeição, que sua vida seja como um filme, que seus sonhos de infância se realizem é esperar – bem – por um desastre.
A chave é reconhecer essas fantasias e substituí-las por expectativas realistas. E como fazer isso? Eu gostaria que a resposta fosse curta.”
Mas não é…


*Kansas é o Estado americano interiorano no qual ficava a fazenda dos tios de Dorothy, a personagem de O Mágico de Oz. Era lá que ela morava quando foi levada por um tornado para o Mundo de Oz

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Do Livro “Meu Terapeuta está me deixando Maluco” de Mark Hillman

Para Refletir

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3 Comments

  1. Putz, Nalu. Fiquei sem palavras, menina! Que coisa verdadeira… Beijo grande, espero te encontrar hoje.

  2. Nalu,
    maravilhoso!!! AMEI!

    Beijocas

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